FICHA TÉCNICA
Cenário: Janice Cantinho Lôbo de Oliveira
Figurinos: Janice Cantinho Lôbo de Oliveira
Luz e som: Reinaldo de Oliveira
Contra regra: Cremilda Ebla
Maquinista: Alceu Domingues Esteves / Aluísio Pereira de Santana
Eletricista: Aníbal Mota
Produção: Teatro de Amadores de Pernambuco
CRÍTICAS E COMENTÁRIOS
No Diário de Pernambuco no dia 4 de agosto de 1960, Joel Pontes,
uma das maiores autoridades na "matéria Teatro" assim se
pronunciou sobre a peça de Priestley:
"O TEMPO E OS CONWAYS"
O primeiro ato se passa em 1919. O segundo, vinte anos depois. O terceiro
é a continuação imediata do primeiro, isto é,
voltamos ao mesmo dia e à mesma hora em que foi interrompida a peça,
ao término do primeiro ato. Houve, portanto, um stop na vida dos
membros da família Conway para que conhecêssemos o seu futuro.
Depois reatamos o presente. Nós, o público, veremos uma família
feliz comemorando a maioridade de uma de suas filhas, Kay. Tudo é
alegria, paz doméstica ou, num plano diferente, tudo é preparação
desse mágico de técnica teatral que J. B. Priestley. Depois
veremos a mesma família fendida pelos anos em suas esperanças
mais queridas, com todos os sonhos desfeitos, na amargura de uma situação
que é a antítese da felicidade anterior. Até aí
temos um seguimento normal, uma peça realista, sem maiores problemas.
O diabo é o terceiro ato, porque nele voltamos aos projetos e esperanças
de vinte anos atrás.
Joel Pontes
De Medeiros Cavalcanti, um dos mais renomados críticos de
arte do Recife, em seu Artes e Artistas, no Jornal do Commercio, do dia
16 de agosto de 1960, assim se expressa:
O Tempo e os Conways
" Numa noite de 1919, a inglesa Kay faz 21 anos. Há festa na
casa dos Conways e num só momento em que fica só, a aniversariante
tem uma "intuição" do futuro. Vive uma reunião
que haverá naquela mesma casa, no ano de 1938. Depois, volta a si,
já não é a mesma. Ela sabe o que o tempo vai fazer
com todas as pessoas em volta. E não é agradável sabe-lo.
DIREÇÃO - A direção de Waldemar de Oliveira
é cuidadosa e brilhante. Eu lhe daria um defeito: arrasta por demais
a peça, mas há momentos em que o rítimo lento me parece
extremamente saboroso. Assim, fico na duvida se é um defeito ou uma
necessidade. Acho que o mais difícil foi conseguido: a mutação
de atmosfera do primeiro para o segundo ato. O salto de 19 anos é
sentido em tudo: no cenário, nas maneiras, nos figurinos, nas pessoas.
Sente-se o escoar do tempo e mais do que isso, a extrema angústia
que é observar o estrago que o tempo faz às pessoas, não
apenas físico, mas, sobretudo moral. Marcas excelentes, discretas.
INTERPRETAÇÃO - Reinaldo não está feliz
no Alan. Parece deslocado. Não teria apreendido o papel. No segundo
ato, empreende visível esforço para parecer demudado, um bom
ator, contudo, sóbrio, excelente nas cenas de humor da charada. Outro
que não pareceu absolutamente adequado ao tipo que imaginei é
Adelmar de Oliveira no Ernest. Mas claro que está excelente no segundo
ato, quando domina francamente o ambiente com seu desdém e auto-suficiência.
Dinara Gouveia fez uma Hazel encantadora, mas sua voz ainda apresenta quedas
bruscas na inflexão. Surpreendente Janice de Oliveira, sobretudo
no segundo ato quando toma a cena, impressionando. Zodja está ótima
na garota Carol, de vida breve. De fato, ela dá a impressão
que o texto exige, de que é a melhor de todas, a mais bondosa, a
mais generosa e alegre. D. Diná tem um instante maravilhoso no segundo
ato, ao evocar o tumulo de Carol e as coisas que ela dizia, quando viva.
Esta cena, talvez a mais emocionante de toda a peça e decorre num
clima de grande ajustamento entre todas, podendo ser considerada perfeita.
No mais, criou com muita felicidade a Sra. Conway, eternamente presa ao
rosin, um pouco ingênua, o que se acentua com o passar dos anos. Geninha
defende com facilidade o papel principal (Kay afinal de contas é
o pivô do drama). Mas não creio que tenha dado tudo de si.
Há momentos que ela me pareceu soberba. Josefina não é
absolutamente a Joan que idealizei, lendo e relendo a peça. Há
qualquer coisa nela que destoa. Mas isso é uma impressão pessoal.
Como atriz ela se porta inteligentemente e no segundo ato dá bastante
vida à amargura de Joan. Otávio fez um discreto papel no Geraldo
e Jomir Austregésilo estreante, como Dinara e Zodja, conduz muito
bem o seu Robin!
CENÁRIOS, ETC. - A peça está muito bem montada,
muito bem vestida. Tudo foi cuidado nos mínimos detalhes. Luz e som
ajudam o espetáculo de modo eficiente. O efeito visual e auditivo
do final do primeiro ato quando Kay entra no sonho, um espetáculo
que recomendo a todos - Medeiros Cavalcanti.
"A cronista Isnar Moura, sempre atenta aos espetáculos de
teatro no Recife, lamentando a ausência do grande publico no espetáculo
de Preiestley, não deixa de procurar levantar o espírito do
nosso público fazendo um relato do espetáculo que considerou
excelente:
Obtêm um belo sucesso, apresentando ao Recife a peça de J.
B. Priestley - "O TEMPO E OS CONWAYS". Mesmo sem quaisquer explicações
sobre teorias de tempo, mesmo sem buscas de interpretações,
a peça é uma beleza. Afinal, a vida não é coisa
para ser entendida pelas nossas limitadas faculdades. Nem a vida, nem o
mundo, nem nada. Tudo isto de querer saber, desvendar o mistério,
não passa de pretensão desse animal pensante, que por isso
se fez orgulhoso demais. A gente sabe que a maioria dos sonhos (acordados
ou dormindo) nem chega a ter sentido. A criação artística
também participa da mesma qualidade. Vale somente que algumas ficam.
Perduram. E eternizam momentos de beleza, de perplexidade, de encantamento,
de ternura. Ou de amargura, tédio, certeza de que tudo é efêmero,
de que o eterno está acima de nossa pobre compreensão, da
nossa clarividência.
Adorável, aquele "espírito" da família, a
reconstituição do que deveria ser a frívola atmosfera
daquele tempo no lar dos Conways e o jeito tão ridículo de
vestir de então. Tudo tão diferente do que chegaria depois,
o ódio, a separação, o sofrimento, a desgraça.
Excelente, o espetáculo."
Irnar Mouro
No Diário da Noite, do dia 16 de Agosto de 1960 na sessão
"Casa de Espetáculos" o escritor e comentarista de arte
Paulo Jatoba assim procurou transmitir aos seus leitores sua opinião:
O tempo e os Conways
O dramaturgo J. B. Priestley, que já nos deu duas peças do
porte de "Dangerous corner" e "An inspector calls",
montadas pelo elenco do Teatro de Amadores de Pernambuco, sob as direções
de Ziembinsky e Waldemar de Oliveira respectivamente, volta agora em corpo
inteiro, com um original de maior intensidade dramática, "O
tempo e os Conways", uma tradução de Daniel Rocha e direção
de Waldemar de Oliveira.
O trabalho direcional está excelente, sabendo o "meteur-en-scéne"
recifense aproveitar os mínimos detalhes da trama, com boas marcas,
notadamente o final do segundo ato. Peça de fôlego, agiganta-se,
sobretudo no seu desenrolar, a longa tarimba da direção dando
justa medida a cada intérprete, para que ele pudesse obter o máximo
em rendimento artístico.
Bons os figurinos e cenários de Janice Lobo de Oliveira (restrição
apenas ao vestido de Madge usado no primeiro ato). Também funcionou
a contento o serviço de luz e som, a cargo de Reinaldo de Oliveira.
Dos estreantes um elemento merece destaque: Zodja Pereira no papel de Carol.
A pequena artista tem realmente as qualidades necessárias para um
largo futuro na arte cênica, pelo desembaraço com que se houve,
valorizando o texto com uma interpretação convincente. Do
chamado naipe veterano dois elementos podem ser apontados como bons: Madge
e Joan, no segundo ato, notadamente pela caracterização marcante
(Janice de Oliveira e Josefina de Aguiar Navarro).
Mrs. Conway teve o desempenho justo no trabalho da Sra. Diná Rosa
Borges de Oliveira, a mesma coisa acontecendo com Kay (Geninha Sá
da Rosa Borges) valendo ainda destacar o serviço de coadjuvação
prestado pelo ator Reinaldo de Oliveira, no papel de Alan.
Adelmar de Oliveira (Ernest) está pesado demais para ser aquele "tímido
rapaz" de que fala o texto; e, ainda mais para ser marido de Hazel
(Dinara Gouveia), o ponto mais fraco de sua interpretação.
O estreante Jomir Austregésilo teve uma atuação regular,
na figura de Robin, faltando-lhe porém mais espontaneidade para se
apresentar como o ator que sempre nele admirávamos. Contudo, o Gerald
vivido por ele, não decepciona.
Paulo Jatobá.