






Registre-se
aqui um fato que suscita, não dúvidas, porem especulações. Que peça deve ser
considerada como a primeira do Teatro de Amadores de Pernambuco. Se "Dr. Knock"
ou "Primerose"? Alegam alguns que "Dr. Knock" foi um atendimento a um convide
do Dr. Otavio de Freitas para um espetáculo "em solenização ao primeiro centenário
da Sociedade de Medicina de Pernambuco, no Teatro Santa Isabel, na noite de
5 de abril de 1941, às 21 horas" como consta do programa e não uma estréia
"oficial" de um grupo de Teatro. Por outro lado nunca se registrou, em nenhum
documento a afirmação de que "Primerose" tenha sido considerada a primeira.
Pelo contrário, todos os outros programas (inclusive o de Primerose), artigos,
plaquetas, jornais, anúncios, gravações, são unânimes em considerar "Dr. Knock"
a primeira e não poderia deixar de ser. Uma e outra foram encenadas no mesmo
ano, com uma diferença de 68 dias apenas. Valdemar de Oliveira em maio de
1941, no Jornal do Commercio, assim se pronuncia: "...depois de o "Dr. Knock",
fizemos, em conjunto, a leitura de diversos originais, escolhemos de início
"Oriente e Ocidente", de Somerset Maughan. Razões de ordem superior nos fizeram
reservar essa grande peça para um dos futuros espetáculos, decidindo-nos finalmente,
pela deliciosa comédia "Primerose" do arquivo francês". Escreve "fizemos",
"em conjunto", "depois de Dr Knock" e se não bastasse, são tantas outras razões
e afirmações, que, nesse trabalho, é considerada a peça Dr. Knock como a 001/1941.
E afinal, "Primerose" só aconteceu porque 'Dr. Knock" acontecera. É filha
portanto. E não se tem conhecimento de filha mais velha de que a mãe. O importante,
como registro, em "Primerose" e a estréia da senhorita Geninha Sá (Geninha
da Rosa Borges) no papel principal de "Primerose" e Alderico Costa no papel
do Visconde Layrac, dois elementos que se constituíram exemplos de dedicação
e amor à causa do Teatro, no Recife. Quando a peça, as críticas e os comentários,
falam mais alto.
ELENCO ORIGINAL: (Ordem alfabética)
| Albérico Glasner* | Samuel Davi |
| Alderico Costa* | Visconde de Layrac |
| Augusto Almeida* | Denis |
| Carlos Roberto | Edmundo |
| Coelho de Almeida | Conde Plénan |
| Creuza de Andrade Lima* | Figurante |
| Dédrano Lima* | Figurante |
| Diná de Oliveira | Condessa Sermaize |
| Edith Glasner* | Baronesa de Montureux |
| Ferreyra dos Santos* | Dr. Fardin |
| Geninha Sá* | Primerose |
| Hélio Tavares* | Barão de Montureux |
| Hilda Santos* | Figurante |
| Ivone Cavalcanti Borges | Donatiana |
| José Carlos Cavalcanti Borges | Cardeal de Mérance |
| Ladyclaire de Oliveira | Sra. de Champvernier |
| Maria de Lurdes Cavalcanti Borges* | Viscondessa de Plélan |
| Maria Elisa Coelho de Almeida* | Madame Starini |
| Menaris Ribeiro* | Figurante |
| Nelí Rabelo* | Sra. de Jeanvry |
| Valdemar de Oliveira | Paulo de Lancrey |
| Valter de Oliveira | Umberto de Plélan |
| * Estreando no Teatro de Amadores de Pernambuco. | |
Cenários: Confeccionados pelos maquinistas José de Barros e João Alves.
Contra regra: Francisco Miranda
Ponto: Abelardo Cavalcanti ( Coleguinha )
Assistente do diretor de cena: Osvaldo Barreto
Entidade beneficiada:
Maternidade do Hospital Pedro II - Escola Normal Pinto Júnior.
CRÍTICAS: "Outrora, pisar, uma senhora, no palco,
era motivo para quebra de preconceito. Ir homem casado a um camarim constituía
causa justa para um amuo conjugal e até separação de casais. E o que vemos
agora, no Recife, é a dignificarão do teatro. Um conjunto de amadores da mais
elevada representação social a interpretar peças de responsabilidade e a empolgar
a platéia, acostumada a aplaudir profissionais de alto coturno. E como coroação
de tudo, os produtos dos espetáculos aplicados em obras sociais. Samuel Campelo
cavou os alicerces e Valdemar de Oliveira está edificando".
Mário Melo
"Primerose" foi o que se pode chamar, sem benevolência, uma peça primorosa.
Foi, na minha opinião, o melhor espetáculo de arte já realizado, entre nós,
por amadores, direi mais: nenhuma companhia das que ultimamente tem vindo
ao Recife, conseguiu dar-nos uma noite de teatro tão integralmente bem ajustada.
Não sabia mesmo o que mais admirar ao fechar o velário, se esse magnífico
espetáculo de arte elevada e fina, se o milagre desse taumaturgo que conseguiu
organizar, no Recife, na patriarcal Recife, esse Teatro de Amadores com simples
objetivo artístico e de cultura, com gente da elite social... Quem assistiu
a "Primerose" sentiu naturalmente esse banho de beleza espiritual, de elevação,
de finura requintada, ao qual não faltou o atiço sal do bom humor, da risada
sadia. "Primerose" satisfaz o espectador. O Santa Isabel estava cheio e o
espetáculo foi uma surpresa maravilhosa e um êxito incontestável: não um êxito
oficial das festas de beneficência, mas o êxito teatral, o triunfo artístico
no mais rigoroso confronto com o teatro nacional de profissionais. A obra
de Valdemar de Oliveira é obra de bandeirante: é esse o vocábulo que melhor
a expressa, porque é ele que melhor define a coragem, a ousadia, o idealismo
do desbravador mirífico. Que a bandeira não perca essa flama sagrada que a
torna digna do prêmio maior: a admiração do povo culto de nossa terra".
Juanita Machado na Folha da Manhã de 20 de junho de 1941.
"A estréia de Primerose foi mais um acontecimento mundano de finalidade caritativa
que mesmo um acontecimento artístico. Pessoas bem intencionadas resolveram,
sem levar em conta a falta de tirocínio, viver um drama patético de amor e
renúncia para um público premeditadamente inclinado ao aplauso. Geninha Sá
tem um talento interpretativo muito natural e espontâneo. O Teatro de Amadores
de qualquer forma está, entre nós, muito alem do teatro profissional".
Paulo Couto Malta, Diário de Pernambuco 15 de julho de 1941.
"O Teatro de Amadores, não só aqui como em todo o país, está valendo como
uma verdadeira afirmação de que nem tudo está perdido, no Brasil em matéria
de arte teatral. O Teatro brasileiro, na verdade, anda a arrastar-se por caminhos
que só podem conduzir ao completo abastardamento artístico. Não será possível
conciliar a má tendência do público com os legítimos interesses da arte, sem
que venha a infalível transigência, por parte de autores e atores, em obediência
a conjunturas econômicas. Por isso, o profissionalismo teatral caiu em cheio
na baboseira. O resultado tem sido seu crescente desprestigio, cujos índices
toda a elite sente e proclama. O Teatro de Amadores, no Recife, é uma das
células de resistência a semelhante estado de coisas e seu nobre esforço se
dirige, inflexivelmente, no sentido de uma reabilitação da arte teatral, entre
nós, e não só dela, mas, necessariamente, também, do próprio bom gosto das
platéias, que ainda se atiram a uma " Pensão de Dona Estela" com valente apetite.
Manoel Almeida Morais, no Jornal do Commercio.
Nota: No mesmo ano, mais 3 espetáculos tiveram lugar, no Teatro de
Santa Isabel, em benefício da Maternidade do Hospital Pedro II e da Caixa
Escolar da Escola Normal Pinto Júnior. Para esses espetáculos ocorreram ligeiras
alterações no elenco:
Craveiro Leite no papel de Barão Montureux
Hélio Tavares no papel de Umberto de Plétan
Valter de Oliveira no papel de Conde Plétan
Pinheiro Dias no papel de Fardin
Sra. Pinheiro Dias no da Visconde de Plétan
Denise Albuquerque no de Madame Startini
De ambas instituições beneficiadas, têm os arquivos do TAP cartas de agradecimento.
A peça excursionou a Natal e Fortaleza, com o elenco das últimas 3 representações,
permanecendo, evidentemente, os demais papeis com os mesmos intérpretes da
estréia. A excursão foi patrocinada pelos Governos do Ceara e do Rio Grande
do Norte, assim como pelo governo de Pernambuco e pela Prefeitura do Recife.
Esses dois últimos cooperaram, financeiramente, nas passagens de ida do conjunto,
enquanto os outros governos receberam os elementos do elenco em suas respectivas
capitais, considerando-os hóspedes oficiais. O governo do Ceará, ainda ofereceu,
ao Teatro de Amadores de Pernambuco, "condução para a volta via terrestre,
"em confortáveis "omnibus", contratados para tal fim".
DEPOIMENTOS:
"Raros os que esbanjam tesouros de inteligência, árduo trabalho e dedicação
indormida no viso nobre e apostólico de educar, difundir sã alegria, amparar,
servir e fazer o bem. O Teatro de Amadores ", de Pernambuco estadeia, em fulcros
de imperecível brilho, a prodigalização desses sagrados dons, comprovadores
da sobrevivência - mesmo num mundo subvertido - da fonte de eterna bondade
que é o coração humano".
Interventor RAFAEL FERNANDES do Rio Grande do Norte.
"O Teatro de Amadores do Recife, soube ser uma prova eloqüente de que, no
Brasil, se pode fazer o bom teatro. É uma demonstração de cultura, da inteligência,
e da tenacidade dos elementos que a compõe. Bem merecidos e justos foram os
aplausos e o apoio que lhe deu o povo cearense".
Interventor Menezes Pimentel do Ceará.
"De mim que tive a ventura de assistir, por duas vezes, ao belíssimo drama
"Primerose", direi apenas duas palavras: Esplendido! Obrigado!
Augusto, Arcebispo Primaz.
Nota: O TAP voltou a encenar "Primerose" em 1944, antes de sua excursão
a Bahia. Foi levado à cena, no Teatro de Santa Isabel, em 14 junho de 1944,
cujo programa existente, nos arquivos do TAP, nos oferece o seguinte elenco:
| Snra. Valter de Oliveira | Sra. Champvernier |
| Dr. Valter de Oliveira | Conde Plélan |
| Snra. Alfredo de Oliveira | Sra. Jeanvry |
| Senhorinha Emilinha Sá | Madame Starini |
| Vicentina do Amaral | Bar. de Montureux |
| Hermilo Borba Filho | Barão de Montureux |
| Alderico Costa | Cardeal de Mérance |
| Adhelmar de Oliveira | Denis |
| Alfredo de Oliveira | Visconde de Layrac |
| Geninha Sá | Primerose |
| Sra. Valdemar de Oliveira | Cond. De Sermaize |
| Otávio da Rosa Borges* | Dr. Fardin |
| Dr. Valdemar de Oliveira | Paulo de Lancrey |
| Snra. Gilberto de Oliveira | Donatiana |
| * Estreando no Teatro de Amadores de Pernambuco. | |
Nota:
Posteriormente seguiu para Salvador em julho de 1944,
em temporada oficial dos Governos da Bahia e de Pernambuco, no Teatro Guarany.
O mesmo elenco do remonte de 1944. Ainda constava como Departamento autônomo
do Grupo Gente Nossa.
Em excursões
você encontrará outras interessantes informações.
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O
elenco com Valdemar de Oliveira.
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Primeira
reunião do T.A.P para
escolha da peça. |